Nesta coluna o professor Saulo César nos conta mais detalhes sobre a leitura e os desafios das novas tecnologias para as pessoas com deficiência visual.

Uso de modalizadores pela pessoa com deficiência visual, parte 2

Continuando a coluna do professor Saulo César, seguimos com a segunda parte.

Caso não tenha lido a primeira, basta clicar aqui.

IDENTIFICAÇÃO DAS EXPRESSÕES MODALIZADORAS NOS GRUPOS SOB INVESTIGAÇÃO

A análise será apresentada de modo resumido, dadas as características e finalidades de um artigo como este. A leitura dos protocolos, referentes às expressões modalizadoras, de acordo com modelos estudados na fundamentação teórica, permitiu identificar os seguintes usos: 1. Expressão aproximativa, com valor pragmático de incerteza ou imprecisão, com relação ao outro ou ao objeto descrito (heteroavaliação); 2. Expressão aproximativa, com valor de incerteza ou imprecisão, com relação à própria elaboração do falante (autoavaliação).

Os protocolos dos grupos de controle e focal revelaram resultados interessantes, que foram organizados nos quadros resumitivos 1 e 2,  apresentados a seguir. No primeiro quadro, foram identificadas as expressões aproximativas mais empregadas pelos participantes do Grupo de Controle. No quadro 2, foram também identificadas as expressões aproximativas mais utilizadas pelos participantes  do Grupo Focal.

  1. QUADRO RESUMITIVO COM EXPRESSÕES APROXIMATIVAS MAIS EMPREGADAS / GRUPO DE CONTROLE
 

EXPRESSÕES APROXIMATIVAS

 

 

 

Participantes

 

 

Valor pragmático de incerteza/empregos

 

 

Imprecisão com relação a própria elaboração do falante

 

 

 

 

 

GC2-SF-1

 

 

Uma  certa

Parece que

Praticamente

02

1

1

 

Acho que

Talvez

De certa forma

Necessariamente

Não sei se

Assim

 

8

5

2

1

1

1

 

GC2-SF-2

 

 

 

Parece que

Assim

Acho que

 

1

1

1

 

 

Acho que

Quase

Talvez

Achei

 

9

1

1

1

 

 

 

GC1-SM-1

 

Acho que

Realmente

Aparentemente

Acredito que

Parece que

Parece

Achei

 

12

2

2

1

1

1

1

 

Acho que

Assim

Parece

Parece que

 

5

2

1

1

SUBTOTAL 223

 

 

 

39

  1. QUADRO RESUMITIVO COM

 EXPRESSÕES APROXIMATIVAS MAIS EMPREGADAS /GRUPO FOCAL

 

EXPRESSÕES APROXIMATIVAS

 

 

Participantes

 

 

Valor pragmático de incerteza/empregos

 

 

Imprecisão com relação a própria elaboração do falante

 

 

 

 

 

GF1-SF-1

 

 

 

Imagino que

0

11

 

Acho que

Não sei se foi bem

isso

Assim

 

3

 

1

1

 

GF2-SF-2

 

 

 

 

As vezes

Acho que

 

 

1

1

 

 

Acho que

Talvez

 

 

2

1

 

 

 

 

GF1-SM-1

 

 

Acho que

 

 

3

 

 

 

 

GF1-SM-2

 

 

Acho que

 

3

 

 

SUBTOTAL

 

 

 

10

 

 

 

 

11

Para exemplificar esta análise, serão apresentados dois recortes dos protocolos. O primeiro foi extraído  do Grupo de Controle e o segundo do Grupo Focal.

RECORTE 01 – GRUPO DE CONTROLE

Linhas 62 –70 / Trecho – 05

  1. Pesquisador: tá bom a narrativa/ durante a narrativa em algum momento

62.1 despertou em você a vontade de de ver as imagens? (+)

  1. GC2-SF-2: nossa, então curiosamente não ((risos)) eu imaginei que iria, mas não,
  2. .não porque :: é:: mas assim / acho que / porque a narração é muito bem feita , a

65.mulher que narra ela coloca cada palavra do título muito certeiro, eu consigo

66.construir a imagem, interpretar e pegar o sentido ((inaudível)) da entonação dela

67.Pesquisador:

  1. GC2-SF-2: muito bem feito, todo momento/ o momento em que ele está criando,
  2. momento em que ele ((inaudível)) eh momento de tensão a narração dela foi eh foi
  3. .suficiente acho que pelo modo como ela faz / eu senti

A leitura do trecho, destacado acima, revela na linha 64, o emprego da expressão aproximativa de dúvida da falante “acho que” como forma de organização da resposta proposta pela pergunta do pesquisador. A participante procurou demonstrar que o texto audiodescrito foi suficiente para informar ao leitor sobre o conteúdo da história, não deixando dúvida quando diz: “a narração é muito bem feita”. Mais adiante, na linha 70, a participante retoma a sua tese inicial observando que foi possível entender a proposta temática do vídeo, quando afirma que “foi suficiente (…) pelo modo como ela faz (narração)”.

RECORTE 02 – GRUPO FOCAL

GF1-SF-1

Linhas 11–16 / Trecho – 02

11.Pesquisador: e você acredita que a a audiodescrição ela foi importante nesse

12.processo pra você entender a proposta desse vídeo?

13.GF1-SF-1: sim, sim foi, mas na verdade eu:: eh acho que eu / um texto inteiro por

  1. ser só uma vez é pouquinho mais difícil de conseguir captar a audiodescrição, pelo

15.menos eu tenho uma dificuldade, assim, de da primeira vez que eu ouço, conseguir 16.absorver tudo

A análise da expressão modalizadora “achar que”, em seu contexto interativo, revela que os participantes a empregaram provavelmente intencionando assegurar sua opinião a partir da pergunta realizada pelo pesquisador. Nesse sentido, tem-se a expressão aproximativa de incerteza “achar que”, como elemento organizador do argumento, comum entre os participantes com deficiência visual e o pesquisador, seguindo estratégias semelhantes às do grupo de controle.

A MENSURAÇÃO DE ALGUNS RESULTADOS

O uso das expressões modalizadoras de proximidade pelos participantes do grupo focal, ao serem comparados com o grupo de controle, apresentou algumas sequências que se aproximaram ao emprego realizado pelos videntes, sem, no entanto, perder as suas particularidades. As convergências estão no emprego das expressões modalizadoras de proximidade explícitas; aquelas em que os falantes revelam a sua opinião, ao fazerem o uso da primeira pessoa (eu), por exemplo, flexionando o verbo modal epistêmico, relacionado ao emprego do pronome “que”. A expressão modalizadora de proximidade mais empregada no grupo composto por indivíduos com deficiência visual foi “acho que”, conforme se poderá conferir no quadro resumitivo 2. Com esse resultado, inferimos que o uso de expressões modalizadoras, formadas por “acho que”, pelos participantes com deficiência visual, evidencia um posicionamento mais seguro, mais “concreto”, em relação ao objeto audiodescrito, levando em conta que a percepção de mundo dessas pessoas passa por um processo tátil-cinestésico, ou seja, é preciso sentir o objeto em suas mãos, percebê-lo com o tato para interpretá-lo. Dessa maneira, quando o participante se posiciona em primeira pessoa, fala a partir de um mundo conhecido, onde se sente seguro, pois tem como referências sua própria experiência de pessoa com deficiência visual.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMIRALIAN, Maria Lúcia T. M. Compreendendo o cego através do procedimento de desenhos-história:uma abordagem psicanalítica da influência de cegueira na organização da personalidade. Tese de Doutorado. São Paulo: Universidade de São Paulo,1992.

GONÇALVES, S. C. L. LIMA-HERNANDES, M. C. & CASSEB-GALVÃO, V. C. (org.). Introdução à gramaticalização: princípios teóricos e aplicação. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

KOCH, Ingedore Villaça e TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Texto e coerência. São Paulo: Cortez, 2005.

MELO, H. F. R. de. Deficiência visual: lições práticas de mobilidade. São Paulo: Unicamp/Pontes, 1991.

MOTTA, Lívia Maria de Mello e ROMEU FILHO, Paulo (org.). Audiodescrição: transformando palavras em imagens. Disponível em: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/pl anejamento/prodam/arquivos/Livro_Audiodescricao.pdf . Acesso em: 08 de dez. 2014.

NEVES, Maria Helena de Moura. Texto e gramática. São Paulo: Contexto, 2006. _____. Uma Visão Geral da Gramática Funcional. Revista Alfa (online), São Paulo, Vol. 38: 109-127,1994. E-ISSN: 1981-5794. Disponível em http://seer.fclar.unesp.br/alfa/article/view/3959. Acesso em 14/05/2017.

NUNES, I. E.; DOURADO, L. Concepções e práticas de professores de Biologia e Geologia relativas à implementação de ações de Educação Ambiental com recurso ao trabalho laboratorial e de campo. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias, v. 8, n. 2, p. 671-691, 2009.

SACKS, Oliver. Um antropólogo em marte. São Paulo: Cia das Letras, 2005.

SANTOS, Gabriela Loureiro et al. A gramaticalização do verbo achar no português do Brasil sob um ponto de vistas diacrônico. Revista Revele. No. 05, 2013. Disponível em file:///C:/Users/MCP3/Downloads/4351-12248-1-SM.pdf. Acesso em 19/05/2017.

SILVA, Saulo César da. Percebendo o ser. São Paulo: LCTE, 2009.

VIEIRA, Paulo A. de Melo e LIMA, Francisco José de. Teoria na Prática: uma inovação no material didático. Revista brasileira de tradução visual. Vol. 02, 2010. Disponível em http://www.rbtv.associadosdainclusao.com.br/index.php/pri ncipal/search/titles. Acesso em: 07 de novembro de 2016.

ZANOTTO, Mara Sophia. Indeterminação, metáfora e a construção negociada do sentido: uma contribuição para o ensino da leitura – Projeto integrado. PUC-SP, 2002.

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