Mas afinal, quando o PFOL (Português para Falantes de Outras Línguas)* surgiu no Brasil?

Com a globalização, a economia brasileira crescendo, a vinda de multinacionais para o país, a cultura brasileira sendo exportada por artistas, os acordos de cooperação entre o Brasil e outros países a demanda pelo ensino/aprendizado da Língua Portuguesa como língua estrangeira/língua adicional cresceu e muitos professores que antes eram professores de língua portuguesa como língua materna ou eram professores de outras línguas estrangeiras começaram a ensinar PFOL também ou, até mesmo, se especializar nessa nova área. Mas afinal, quando o ensino/aprendizagem de PFOL surgiu no Brasil? Essa é uma pergunta que vamos responder neste primeiro artigo desta coluna.

Talvez nunca tínhamos pensado nisso, mas o começo do ensino de PFOL deu-se com a chegada dos portugueses ao Brasil e com a catequização dos índios. Porém, é somente na década de 1950 que a disciplina deu seus primeiros passos. Nessa época, ainda havia pouca oferta de cursos da língua e o material utilizado era publicado no exterior. No ano de 1954, foi publicado o primeiro livro brasileiro de PFOL “Português para Estrangeiros”, de Mercedes Marchant. Na década de 1960, começam a surgir interesses em pesquisas e ofertas de cursos de PFOL de algumas partes do mundo, como dos Estados Unidos, em 1966, data em que alguns pesquisadores brasileiros e norte-americanos se juntaram para elaborar um material publicado em 1971, intitulado Modern Portuguese. (MATOS, 1997)

Somente nas décadas de 1980 e 1990 é que os estudos na área começaram a ser divulgados. As primeiras dissertações de mestrado sobre PFOL são de Arai (1985), com o título “Fluência na aquisição do português como língua estrangeira” e Moura (1986), com o título “Uso de conceitos psico-sócio-linguísticos para avaliação de conteúdo em livros didáticos de português para estrangeiros”, na PUC/SP e na UFPE, respectivamente. Não obstante, o primeiro livro, organizado por Almeida Filho e Lombello (1989), foi lançado em 1989, e reunia artigos sobre ensino de PFOL – “O Ensino de Português para Estrangeiros: pressupostos para o planejamento de cursos e elaboração de materiais”. (FURTOSO, 2001, p.25)

Com relação à formação de professores, a Universidade de Brasília foi pioneira com a implantação de uma disciplina para a formação de professores de PFOL, em 1988, e a criação, em 1990, do Programa de Ensino de Pesquisa em Português para Falantes de Outras Línguas (PEPPFOL). (FURTOSO, 2001, p.23)

É, também, em meados de 1990 e na década seguinte que a publicação de livros didáticos e artigos torna-se significativa. Nessa mesma época, são criados os Leitorados (função regulamentada pela CAPES/MEC e MRE em 1999), os Centros de Estudos Brasileiros e os Institutos Culturais, que têm o objetivo de divulgar a cultura e língua brasileira por todo o mundo. Além disso, é criado em 1993, o Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros, o CELPE-Bras, exame oficial do Ministério da Educação, composto por tarefas que visam a avaliar a compreensão e a produção oral e escrita do indivíduo. O CELPE-Bras é requisitado por algumas universidades para ingresso nos programas de graduação e pós-graduação e também por algumas entidades para a validação de diplomas de profissionais estrangeiros que trabalham no país.

Em 1991, o Tratado do Paraguai abriu as fronteiras econômicas com a criação do Mercosul, que, segundo Zoppi-Fontana (2009, p.16), foi um marco para a institucionalização do português como língua estrangeira e como “língua transnacional”. Assim a procura por aulas de português para estrangeiros cresceu. Nesse mesmo ano ocorre, no Brasil também, a fundação da Sociedade Internacional Português Língua Estrangeira (SIPLE), que reúne pesquisadores, professores, linguistas e estudantes, cujos interesses em comum são os de divulgar, estudar e colaborar para o ensino/aprendizagem de PFOL.

Durante esse período, a demanda pelo ensino de PFOL cresceu, assim como a economia do país, o que fez modificar um pouco o público-alvo dessa disciplina, que passou a ser formado também por trabalhadores imigrantes, pessoas em situação de refúgio, intercambistas e executivos de multinacionais e seus familiares. Para essas novas demandas, surgem os cursos da língua em centros de línguas de universidades brasileiras, além das ofertas dos cursos da língua pelas escolas de idiomas e instituições e ONGs. A demanda por professores de PFOL também cresce e a profissão começa a ser vista com mais seriedade. Para isso, mais cursos de formação específica de professores são criados, assim como cursos de graduação e também programas de mestrado e doutorado, em algumas universidades brasileiras.

Quase 70 anos depois, podemos identificar a área como uma área consolidada, com materiais didáticos diversificados, pesquisas e ofertas de muitos cursos em escolas de idiomas, mas a oferta de cursos para formação de professores de PFOL ainda é pequena (vamos abordar e ampliar esse tema em outro momento).

Agora que você já sabe como o ensino/aprendizado de PFOL iniciou no Brasil, vamos conhecer um pouco mais sobre as siglas e os perfis dos alunos? Esse vai ser o tema de nosso próximo texto. Até lá!

*Desde 2001, com a dissertação de Furtoso (2001), escolhe-se utilizar o termo PFOL, que se refere tanto aos aprendizes de L2 (indivíduos que aprendem a língua em contexto de imersão), como aos aprendizes de LE (indivíduos que aprendem a língua como estrangeira, em um país em que ela não é oficial).

Texto extraído e adaptado da dissertação de mestrado:

UETI, Luhema Santos. O léxico da cultura brasileira no livro didático “Português via Brasil: um curso avançado para estrangeiros. P. 16-17. Dissertação (Mestrado). Universidade de São Paulo, 2012.

Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8142/tde-15052013-092344/pt-br.php

Bibliografia:

ALMEIDA FILHO, J.C.P.; LOMBELLO, L.C. (Orgs.). O ensino de português para estrangeiros – pressupostos para o planejamento de cursos e elaboração de materiais. Campinas: Pontes, 1989.

ARAI, N. Fluência na aquisição do português como língua estrangeira. 1985. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada ao Ensino de Línguas) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1985.

FURTOSO, Viviane Aparecida Bagio. Português para Falantes de Outras Línguas: aspectos da formação do professor. 2001, 174 f. Dissertação (Mestrado em Letras). Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2001.

MATOS, Francisco. Quando a prática precede a teoria: a criação do PBE. In: ALMEIDA FILHO, J. C. P. & LOMBELLO, L. C. (Orgs.) O ensino de português para estrangeiros: pressupostos para o planejamento de cursos e elaboração de materiais. 2ed. Campinas: Pontes, 1997, p. 11-17.

MOURA, V.L.L. O uso de conceitos psico-sócio-lingüísticos para Avaliação de conteúdos em livros didáticos de Português para Estrangeiros. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1986.

ZOPPI FONTANA, Mônica Graciela. O português do Brasil como língua transnacional. In: ______. (org.). O português do Brasil como língua transnacional. Campinas: RG, 2009. p. 13-41.

Para saber mais sobre o tema:

ALMEIDA FILHO, José Carlos Paes de; CUNHA, Maria Jandyra Cavalcanti. Projetos iniciais em português para falantes de outras línguas. Brasília: EdUnb; Campinas: Pontes Editores, 2007.

DINIZ, Leandro Rodrigues Alves. Mercado de línguas – A instrumentalização brasileira do português como língua estrangeira. Campinas, Editora RG, 2010.


Luhema Ueti é professora de PFOL desde 2005, formada Letras e Pedagogia, com Mestrado em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Escreve nesse espaço duas vezes por mês.

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