Pelos Deuses do conhecimento

Ainda que a maioria das experiências dos professores de Português para estrangeiros seja positiva, com relatos de experiências enriquecedoras, de momentos amorosos e prazerosos, há situações que são muito difíceis de lidar. A frase “se vira nos trinta”, muito usada para descrever situações complicadas que exigem habilidade e experiência é um indicativo das dificuldades encontradas pelos professores de PLE. Se ele é contratado para dar aulas para grupos, terá no mínimo, cinco ou seis nacionalidades diferentes em sua sala de aula. E haja criatividade, energia e conhecimento para atender a todos sem distinção. Há grupos de diferentes níveis de conhecimento, de diferentes idades e de diferentes interesses que exigem muito mais do que o domínio linguístico e gramatical. Mesmo quando a aula é individual, não é tão simples atender a todas as expectativas de um estudante, há vista não ter outros estudantes interagindo e contribuindo para a evolução do tema e do aprendizado. Mas, em grau de dificuldade para ensinar, nada se compara àquele estudante que está apenas iniciando as aulas de Português e bombardeia o professor de perguntas que requerem anos de estudos. E, mesmo que o professor se desdobre e responda aos questionamentos, ele não entenderá, até porque não conhece a maioria dos termos que serão necessários para a explicação ser coerente. Na verdade, este tipo de aluno não está aberto a um novo método de ensino. Pior, tentará impor o seu método de ensino ao professor.

Provavelmente, todos os professores que ensinam Português para estrangeiros já passaram pela situação citada anteriormente. E o que fazer? Como mudar a mente de alguém que veio de outro país que, muitas vezes desconhece o alfabeto romano, com costumes e valores tão distintos? Como é possível se crer mais conhecedor dos métodos de ensino do que o professor nativo?

Normalmente, logo no início dos cursos ou aulas, ele começa com perguntas fáceis de responder: “por que o verbo por pertence à segunda conjugação”? “Porque no latim era escrito poer, mas no português a letra e foi eliminada, assim, ele pertence a segunda conjugação”. Ele volta ao ataque: “Se é diferente, tem de ter outra conjugação”. E, com aquela pretensão de quem vai consertar o método que o professor usa, mantém-se atento e questionador do que nem cabe ao professor resolver.

Outro ponto de discórdia: “Por que que existe esta letra ‘ç’ nas palavras? E lá vai o professor explicar a origem da cedilha no Português. A explicação parece ser aceita, mas ele não desiste: “Mas esta letra não está no alfabeto, logo, está errado”. E mostra indignação. Mas quando o professor escuta “vou perguntar para meu amigo que sabe Português”, é preciso tomar uma atitude. Pelos deuses do conhecimento e das letras, este tipo de estudante está sendo desrespeitoso.

Estes são alguns exemplos muito simples de como certos estudantes conseguem fazer o tempo de uma aula ser quase nulo, pois o tempo que deveria ser para uma prática comunicacional, foi usado para questões que, naquele momento eram pertinentes. Sua maior função na sala de aula é mostrar que o professor está errado e ele, certo. Neste caso, “se virar nos trinta” também significa “ter paciência de Jó”, ser resiliente e comunicar a escola que as coisas precisam mudar.

Nosso ofício é belo e grandioso. Contudo, não está livre dos aborrecimentos e frustrações. Que ele vale a pena, não há dúvida. Que devemos dispensar alguns tipos de alunos, também não. “Se virar nos trinta”, também inclui não submeter a situações que não cabem numa aula de PLE.

Elza Gabaldi é professora de português para nativos e estrangeiros há 30 anos. Também leciona espanhol e escreve neste espaço todos os sábados.

  • 29/06/2019

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