Outros alfabetos

Quem já passou pela experiência sabe que ensinar português para crianças falantes de outras línguas, não é para qualquer um. Ensinar crianças que desconhecem o alfabeto romano consiste em um desafio ainda maior do que ensinar uma criança nativa ou que conheça o alfabeto romano, haja vista ela desconhecer não apenas as letras, como também os sons e usos das palavras, o que a coloca numa situação bastante difícil ao ser inserida em sala de aula. Além disso, elas requerem os mesmos cuidados que qualquer criança nativa requer.

Muitos são os fatores que implicam o processo de ensino/aprendizagem aos não falantes de português. Desconhecer os comportamentos culturais é uma barreira enorme porque implica não saber como proceder em muitas situações. Isso, por vezes pode parecer falta de educação, mas é apenas uma ação normal em sua cultura, mas estranha a nós, como por exemplo, não olhar para o professor quando ele explica determinada palavras ou frase. Para eles, fixar-se na parte escrita, isto é, dominar o código, é o suficiente. Contudo, quando se deparam com letras como c e g que vão mudar de som diante das vogais “e” e” i”. O olhar deles demonstram o suto e o grande ponto de interrogação que a mudança de uma vogal pode causar. isto ocorre também com os sons do “g” e do “j”, do “q” e “k”, além do pb, fv, dt, etc. Estes são apenas alguns exemplos da batalha que o professor terá de enfrentar para ajudar este tipo de estudante – de qualquer idade – a se comunicar em português. Custa muito mais tempo e mais trabalho do que ensinar um nativo, até porque este conhece o som e a imagem, precisando aprender apenas o domínio da escrita.

Crianças e jovens que chegam de países como China, Etiópia, Síria, Líbano e África em idade escolar e precisam acompanhar o ano letivo, são os que mais sofrem. Muitas vezes, eles são colocados nas salas de aula, em séries avançadas, sem nenhum conhecimento da língua portuguesa. E, convenhamos, ficar ouvindo conversas, explicações, vendo páginas abertas escritas em uma língua desconhecida por horas causa, no mínimo, grande cansaço.

Se atentarmos para a distância que se encontra o alfabeto romano dos caracteres chineses, por exemplo, torna-se mais fácil entender o porquê eles precisarem de mais tempo para dominarem a língua portuguesa. Os caracteres chineses, também chamados de logogramas, (汉字 / 漢字Hanzi), são utilizados também no Japão e Coréia do Sul, com modificações. A escrita ge’ez (ግዕዝ Gəʿəz), também chamada de etiópica, é uma escrita originalmente desenvolvida para escrever a língua ge’ez, língua semítica. As línguas que fazem uso deste tipo de alfabeto é o amárico e o tangrina. O alfabeto árabe, ( أبجدية عربية) é o principal  alfabeto usado para representar  a língua árabe e outras como o persa e línguas bérberes.

Minha experiência ensinando pessoas que aprenderam outro alfabeto que não o romano tem confirmado que é bem mais trabalhoso e difícil ensiná-los do que ensinar quem domina o nosso alfabeto. Aprendi que nada substitui a presença amiga e dedicada dos professores. Eles fazem toda a diferença: produzem, exercícios, fazem desenhos, gesticulam, representam cenas porque não esquecem de se colocar no lugar do estudante. Na verdade, eles se jogam de corpo e alma na missão de socorrer àqueles que se encontram quase à parte da sociedade, devido a diferença profunda entre os alfabetos.

Com as frequentes mudanças no mundo, percebemos cada vez mais a presença não apenas de venezuelanos, peruanos, colombianos, mas também de sírios, africanos entre outros. E como ensinar nossa língua a tantos povos tão distintos? Sendo humano e se colocando no lugar do outro, sem esquecer seu grande valor e contribuição nesta desafiadora jornada.

Elza Gabaldi é professora de português para nativos e estrangeiros há 30 anos. Também leciona espanhol e escreve neste espaço todos os sábados.

  • 15/06/2019

 

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