Comendo fruta, cuidando de plantas ou mesmo chamando alguém vemos muitas palavras que são herança indígena no português.

Nhenhenhém, a herança indígena no português

Nhenhenhém, é riqueza vocabular, a herança indígena no português.
Nenhum brasileiro tem dúvida sobre sua língua materna. Sabe que sua maior expressão se dá pela língua portuguesa.  É por meio dela que ele se identifica e se expressa. Contudo, comendo uma fruta, cuidando de plantas, passado por cidades ou mesmo chamando alguém pelo primeiro nome, verifica-se que são muitas as palavras que não são oriundas do Português. Elas são uma herança deixada pelos nativos da Terra Brasilis, os índios.
Quando os europeus aqui aportaram, depararam-se com uma infinidade de plantas, frutas e animais que desconheciam. Foram os índios que apresentaram todas as novas espécies aos europeus. E, até hoje usamos grande parte das palavras delas, ainda que não conheçamos seus significados.
Quem nunca comeu jaboticaba, ou tomou seu delicioso licor? Quem nunca viu uma jaguatirica? Se não viu, já viu o tatu. Este animalzinho foi tema da Copa do Mundo, o Fuleco. E muita gente ficou jururu por causa do fracasso de nossa equipe.
Ninguém quer morar numa biboca, nem ficar velha coroca, muito menos capenga. Ficar jururu, nem pensar. Melhor comer mandioca e lambari fritos em companhia da Iracema.
Melhor ainda, conhecer mais palavras que estão na boca do povo e em muitos outros.
Frutas: Segundo Silveira Bueno, jaboticaba vem do tupi-guarani e significa fruto em forma de botão. E haja botão naqueles galhos e troncos. Nascem pequenos, verdes e crescem e se tornam roxos intensos. Ricos em tanino, como o vinho. Assim, dizem.
Animais: jabuti, que nada e respira. Jaguatirica, onça arisca, fujona.
Lugares: Jabaquara, de yabá-coara, que significa o lugar dos fujões. Lugar no alto da serra entre Santos e São Paulo. Para lá fugiam os escravos e lá formaram quilombos.
Plantas: jacarandá, que tem cerne duro, madeira dur. Esta árvore, além das flores roxas, é muito usada em chás. Sua madeira serve para fazer violões. Encanta os olhos e os ouvidos.
Pessoas: Iracema, lábios de mel. Iara, senhora, dona.
Há ainda os adjetivos:
Coroca, que significa caduca, misturou-se com o latim. Caduco em latim significa aquele que cai.
Capenga, de acanga, osso; de penga, quebrado. Ou seja, ficar quebrado, partido, aleijado.
Jururu, de yuru-ru, boca comprida, bico comprido. E quem não fica de bico quando está triste, pensativo ou melancólico?
Biboca, significa buraco no chão. Também se associa a casebre, casa feita de pau-a-pique e barro.
Mandioca. Esta faz sucesso em muitos pratos. No livro, O país das Bananas, de J. A. Dias Lopes, está registrado que os europeus ficaram encantados quando viram os índios comendo aquela raiz cozida com mel. Mal sabiam eles que esta raiz nos daria muitas outras riquezas culinárias.
Lambari, de lambary, pequeno peixe de água doce. Muito apreciado como petisco ou tira-gosto. Por ser pequeno, quando frito, fica crocante.
Como se pode observar por estas poucas palavras, não se pode negar que o português do Brasil foi enriquecido graças àqueles que aqui estiveram antes de nós. Quem não presta atenção nisso, perde um patrimônio imensurável.
No uso comum, dizemos que nhenhenhém quando queremos dizer que alguém está falando muito e coisas sem importância. Mas nhenhenhém, segundo Nascentes, vem do tupi e significa falar.
Hoje, sabemos que 80% dos nomes da fauna e da flora vem principalmente do tupinambá. Não podemos ainda esquecer outras palavras que enriquecem nossa língua portuguesa. Tal riqueza está em nossos lábios e em nossas vidas todos os dias.
Elza Gabaldi é professora de português para nativos e estrangeiros há 30 anos. Também leciona espanhol e escreve neste espaço sempre que pode. Acesse suas outras colunas aqui.

 

  • 06/07/2019

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