Nesta coluna a professora Elza Gabaldi compartilha um aspecto muito pessoal de sua vida:sua convivência diária com a fibromialgia.

Dor

Todo meu corpo dói. Dói todos os dias e todas as noites. Dói porque estou sentada, porque estou deitada, porque estou de pé. Nenhuma posição me é permitida por muito tempo, ainda que eu necessite de todas para diminuir a dor.  Tudo dói.

Descalça, os pés doem; com sapatos, também; com saltos, doem mais e mais; sugerem tênis: “são mais confortáveis”… Ledo engano: pressionam as unhas, machucam o calcanhar, fricciona o peito do pé, meus pés sempre doem.

Os exercícios auxiliam no combate à dor, mas se os exercícios forem “um pouco mais fortes ou pesados”, causam muita dor. A nuca endurece e a dor sobe pela cabeça até o cérebro, é forte nas têmporas, vai até o globo ocular, desce em direção à coluna, principalmente na parte que se situa entre os braços e a coluna, queima e cria nódulos muito duros e doloridos. Há sempre algo pressionando, como pontas que querem penetrar nas minas carnes.

Minhas pernas, grandes companheiras nas caminhadas, sempre fortes e resistentes aos meus passos apressados também doem; doem quando inicio a caminhada ou um exercício e doem depois porque simplesmente doem. Se cansam muito, doem e incham. No calor incham mais; os pés também e aí, que sapato me servirá? Todos vão me causar mais dor.

As costas, na região lombar, ela é cruel. Por ali se alojam alguns anzóis que me fisgam em momentos que não espero, com algum movimento que faço e me torturam insistindo: sua coluna vai travar, sua coluna vai travar. É um coro repetindo isso todo o tempo. E, quando trava, meu Deus. Não terei um lugar confortável me para me posicionar, nem meu corpo com ele mesmo se entenderá.  Fico torta e quase me arrasto.

Cheguei à conclusão de que meu corpo é uma prisão que pratica sessões de tortura. A liberdade pertence à alma e ao espírito que são etéreos porque o corpo físico, dói e dói.

Quando menina eu chorava muito. Acredito que incomodava muito as pessoas. Eu não me lembro de dias que mesmo criança, não me sentia sem dor. Com o passar do tempo, na adolescência, ela se acentuou. A chegada da menstruação transformou a dor em tormento.  Quinze dias antes e dez depois, dores e dores. Mas estas são as dores diferentes das costumeiras, porque as dores da fibromialgia estão ali, nunca se vão.

Tão poucas vezes na vida senti pouca dor. Na verdade, lembro-me de uma vez, já depois dos cinquenta anos que acordei e fui caminhar. Não sentia nenhuma dor. Que coisa incrível, que delícia usufruir de meu corpo. Ele ia comigo e não me incomodava em nada. Que coisa maravilhosa. Finalmente senti algo que não tinha sentido nunca. Devia ser a liberdade incorporada em mim.  A perseguição havia terminado?  Como foi bom ser livre. Durou uma manhã apenas e se foi… E deixou saudades. Aquele dia foi um dia muito diferente em minha vida. A liberdade se chama ausência de dor.

A constância da dor em minha vida trouxe outros sofrimentos que não pude evitar: dificuldade nos estudos, nos relacionamentos e relações familiares. Perdi muito no campo profissional  porque viver na ponta da faca, isto é, com dores o tempo todo e todo deixa os nervos à flor da pele, no limite. Ser professora e estar sempre à frente de grupos de pessoas jovens que exigem muito mais do que um ser humano comum pode oferecer quase me enlouqueceu.

Quem sofre de fibromialgia, nem sempre sabe a dimensão de sua dor. Ela pontos que se destacam no corpo, mas é generalizada e vai crescendo sem que se tenha a exata medida do momento em que se reagirá contra ela. Normalmente, é algo externo que traz a consciência que ela está muito forte.  E aí é tarde, já aconteceu algum desentendimento ou atrito. E depois, disso, vem também a dor da culpa. A diminuição de si mesmo é uma prerrogativa. Quando se constata que as pessoas não compreendem o que acontece com quem leva esta carga, é beirar o inferno.

Corpo, corpinho meu, há algum outro que doa tanto quanto você?  Não sei, não se compara. A dor não se vê, não se pode medir, apenas sentir. Cada dor é única

Então, morrer é uma ideia boa, se transforma em vontade. Nela deve estar a liberdade: sair do corpo, ser etéreo e livre para sempre.

Para conferir um pouco mais sobre a fibromialgia, clique aqui.


Elza Gabaldi é professora de português para nativos e estrangeiros há 30 anos. Também leciona espanhol e escreve neste espaço toda semana. Leia suas outras colunas aqui.

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