Carta ao Universo

Caro Senhor!

Sabendo que desde que o mundo é mundo o Senhor já existia, tomei a liberdade de escrever esta carta. Espero não aborrecê-lo com minhas observações, por isso, serei breve. Na verdade, penso que com sua idade, experiência  e conhecimento, responder às minhas perguntas será moleza.

Eu não sei se o Senhor prestou atenção, mas por aqui, quem mais fala seu nome são os crentes, místicos e cientistas. Os crentes esperam muito do Senhor. Eles acreditam que o Senhor é Deus, que o bem está acima de tudo e, mesmo que isso não aconteça por aqui, no Planeta Azul, depois da morte as coisas se ajeitarão. Devo alertá-lo de que nem todos os crentes têm discernimento do que de fato é verdadeiro e importante, daquilo que não é. Na verdade, eles defendem mais seus próprios interesses do que os que deveriam ser de toda a humanidade. O místicos te exaltam. Dizem que tudo o que pedimos ao Senhor, conseguiremos.  Falam em lei do retorno, da evolução, das energias, entre outras coisas. Há muita gente boa que pensa assim. Preste atenção neles também. Os cientistas são os mais ousados. Eles inventaram cada aparelho para observá-lo que nem dá para acreditar. São telescópios com lentes tão potentes que eles enxergam estrelas que ninguém tinha visto antes. O que me assusta é que eles descobrem muitas coisas legais, mas também descobriram uns buracos negros que suga tudo que se aproxima deles. E o pior, nem te conto, ninguém sabe o que tem do lado de lá. Muito cuidado com estes cientistas, pois eles só acreditam naquilo que comprovam cientificamente. E até agora, eles não conseguiram dar uma explicação muito científica para o Senhor. Olhe esta definição e me diga se tenho razão ou não: “Universo é o espaço e o tempo em que todos os astros estão inseridos, incluindo a Terra, o Sol e os demais planetas”.

Acontece que eu li em reportagens que há mais sóis por aí, além dos buracos negros que já devem ter levado muitas coisas para o lado de lá. Isso não lhe parece estranho, caro Senhor? 

Tomarei agora a liberdade de expressar minha modesta opinião: não estariam os cientistas olhando demais para cima, isto é, para o céu e se esquecendo de olhar para a terra onde pisam? Sei que há muitos que já fazem isso, mas eles explicam as coisas no transcorrer da história, nos movimentos sociais, mas não ajudam muito porque a acabar com a fome e a sede, por exemplo. Sabemos a fome e a sede avilta os seres humanos. A fome gera crimes de todos os níveis e tipos,  que gera infinitos traumas, tristezas e perdas. 

Com os crentes acontece a mesma coisa. Muitos deles trabalham para combater a miséria entre outros problemas, mas os que estão no poder, na maioria das vezes, pensam apenas em seus cargos e posições, esquecendo-se de que há milhares de pessoas que desejam apenas ter uma comida simples para se alimentar, uma casinha para morar e chamar de lar, um trabalho para se dignificar.

Eu acredito que se eles tivessem estas coisas mínimas, eles também ajudariam mais outras pessoas e seriam mais realizados. E também seriam menos violentos. Logo, haveria menos crimes e menos sofrimento, logo, mais alegria. Tenho certeza de que o discernimento tomaria conta das  mentes e as pessoas não precisariam mais de tanta polícia, nem de tantos médicos, não é mesmo?

Senhor, desculpe minha ousadia porque sou ainda criança, tenho pouco mais de 50 anos e ainda não entendi muitas coisas. Não quero ser indiscreta, não pense que estou lhe chamando de velho, não, nada disso. Mas comparando sua idade com a minha, acho que não será difícil para o Senhor me tirar estas dúvidas todas. Eu não pretendo crescer com elas martelando minha cabeça, entendeu? 

Vou me valer de uma frase dos místicos: “jogue para ao universo que ele responde”. Eu não quis jogar porque achei meio grosseiro. Achei que escrever seria mais educado. Espero que o Senhor entenda português. Caso não entenda, pode usar um tradutor. Eles não são muito bons porque não refletem exatamente o que se pretende dizer porque não sabe ler nas entrelinhas. Mas fique tranquilo em responder como entender porque estou acostumada. Por aqui já me chamaram de louca. Outros dizem que falo grego, mas nunca fui internada num hospício, nem estudei grego. 

Aguardo sua resposta. 

Atenciosamente, 

Menina do Planeta Azul.

Elza Gabaldi é professora de português para nativos e estrangeiros há 30 anos. Também leciona espanhol e escreve neste espaço toda semana.

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