A professora Elza Gabaldi fala sobre a pandemia e seus reflexos na linguagem em nosso dia-a-dia que nunca mais será igual!

A linguagem da pandemia

Segundo Victor Hugo, as palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade. O que seria mais leve do que um vírus? O que seria mais difícil de controlar do que uma pandemia?

Na escola, ao estudarmos os prefixos gregos, aprendemos que o prefixo epi significa propagação. Então, epidemia é a propagação de uma doença contagiosa em uma região. Aprendemos também que o prefixo pan significa sobre, por inteiro, todos. Não foi complicado saber como o vírus se espalhou pelo mundo todo e vivemos uma pandemia.

Vivenciar as palavras nos ajuda a entendê-las e usá-las. E para melhor as representarmos, damos novos significados às elas. A quarentena foi um laboratório para muitas criações. Está na natureza humana a força criativa.  A linguagem é de longe uma força criativa extraordinária.

Tudo começou quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) alterou o nome Coronavirus para Covid 19. Ainda que muitos desconheçam seu significado (Corona Virus Disease), rapidamente tomaram posse dele e criaram outros. Um deles é covidiota. Esta palavra se refere àquelas pessoas que não respeitam o isolamento ou tomam medidas estranhas como estocar alimentos e papel higiênico. Mais recentemente, temos os anti-máscaras e os máscaras no queixo.

A influência da língua inglesa não quis ficar por baixo. Mostrou-se forte durante a pandemia. Quem pôde trabalhar em casa fez home Office. Quem perdeu emprego trabalhou nos serviços domésticos. E não foi nada fácil para muita gente. Quando todos estão dentro de casa, o trabalho é sem fim. Sair para procurar trabalho não adiantava, estava tudo fechado. A hashtag (#) fique casa bombardeava a todos.

Mas como surgiram palavras em inglês, ficou mais complicado. Existem pessoas que não entendem esse uso num país de língua portuguesa. Então,  elas saiam, iam para as ruas. Aí não teve jeito. Algumas autoridades adotaram o Lock down, o que piorou tudo porque as pessoas não sabiam que estas duas palavras significavam fechamento total.

O entendimento foi forçado com polícia descendo o sarrafo naqueles que não sabiam o que era lock down. Governadores ameaçaram localizar as pessoas rastreando seus celulares, mandaram prender mulheres indefesas e também trabalhadores simples que saiam em busca de seu ganha-pão. Os juízes, fizeram o posto: mandaram soltar os maiores corruptos do país, ladrões e maridos agressores, colocando a sociedade em maior perigo do que a própria pandemia. Uma vergonha nacional. Não houve tradução, mas poderia ser “A national shame”?

O povo, na sua criatividade, simplificou o que os meios de comunicação importaram. Adotou para o famigerado lock down o nome “tranca-ruas”. Ficou bem mais fácil de entender. Inclusive, apelidou como tranca-ruas alguns governadores que ameaçaram prender e multar quem saísse. A palavra tranca-ruas serviu para reavivar na memória das pessoas a herança africana presente em nosso idioma e em nossa alma.

Com o tempo a população entendeu que não se tratava apenas de um surto. Da epidemia que se iniciou na China, vimos a sua transformação em pandemia. E com o prefixo pan, também aprendemos que as autoridades, os meios de comunicação e as redes sociais fizeram um pandemônio com a palavra vírus, tão leve que veio pelo ar sem que olhos nus pudessem ver.

A população, em meio ao jogo de interesses que se transformou a pandemia adotou a panacéia. Era melhor assim, já que a desinformação vinha das próprias autoridades responsáveis que se diziam combatê-la. Mas, o pior medo aconteceu com uma nova palavra que apareceu, o “Covidão”, uma praga da corrupção que imita outra, mais antiga, o “Mensalão”.  Estas palavras são piores do que a pandemia porque tem uma vida muito longeva por estas bandas. Elas matam ao longo do tempo milhares e milhares de pessoas, principalmente os mais pobres.

E assim, nas tragédias e nas comédias vão se criando novas palavras. Porém, algumas que não foram criadas agora e é de domínio de todos não podem ser esquecidas: a justiça e a esperança. A população espera que tudo isso não acabe em pizza e que as autoridades não lavem as mãos como Pilatos fez.

As pessoas aprenderam a lavar as mãos, literalmente e buscaram se proteger de acordo com suas condições. Aprenderam novas palavras e o poder delas. E por isso mesmo estão tristes e decepcionadas porque descobriram que as palavras com prefixo grego epi e pan, ainda que tão antigas são melhores do que covidão, que rima com ladrão.

Elza Gabaldi é professora de português e espanhol com 30 anos de experiência. Escreve nesse espaço sempre que quer!

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