2021: Os desafios educacionais na pandemia

O professor Saulo César começa o ano de 2021 pensando sobre desafios educacionais na pandemia, algo fundamental na área da educação.

A atual conjuntura social e econômica em nosso país exige de nós, profissionais da educação, um replanejamento, que vai muito além dos desafios em sala de aula e dos conteúdos programáticos específicos das disciplinas. Isso se mostra ainda mais grave quando se insere nesse contexto, os alunos com necessidades educacionais especiais, e em particular os cegos.

É de conhecimento de muitos, seja pela prática docente, ou por meio de informações veiculadas pelos diversos meios de comunicação, que entre os anos de 2003 e 2016, o Brasil avançou muito na conquista dos Direitos da Pessoa com Deficiência, avanço este refletido por meio de ações afirmativas e capitaneadas por um Ministério da Educação, que tinha como uma de suas principais metas a ideia de uma escola para (e com) todos. A título de exemplificação, gostaria de citar a campanha “Toda criança é única”, implementada pelo MEC, que se organizava por uma série de vídeos, em que alunos do ensino fundamental, de escolas públicas, com diferentes deficiências, eram apresentados em contexto de inclusão em sala de aula. ¹

Durante esse período, floresceram propostas de Educação Inclusiva, com novas diretrizes curriculares; além de cuidado na criação e manutenção de cursos para formação de professores para trabalharem em cenários de diversidade. O país viveu, naquele período, uma espécie de “apogeu educacional”, em que a meta era zerar o índice de analfabetismo com nenhuma criança fora da escola.

É preciso observar, no entanto, que isso só foi possível porque houve um conjunto de ações, no campo social, com a construção de redes de proteção como Bolsa Família, por exemplo, que permitiu a inversão de uma lógica perversa, que vigorou no Brasil, oriunda de suas raízes escravocratas, separando a sociedade em um tipo de “castas”. Portanto, antes de se ter todas as crianças em sala de aula, seria necessário proporcionar a elas e as suas famílias, a possibilidade de sobrevivência, levando-se comida para suas mesas, ao menos, três vezes por dia.

Durante essa “onda social”, tive a oportunidade de desenvolver e concluir minha pesquisa de doutorado, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, cujo objetivo foi identificar como o aluno universitário cego constrói as suas identidades sociais, durante as atividades de leitura. Essa experiência acadêmica me trouxe ganhos profissionais e pessoais muito valiosos, pois aprendi a “ver” com outros olhos o mundo e a vida, desenvolvendo, assim, instrumental necessário para o planejamento de atividades pedagógicas com os alunos cegos em sala de aula, na área de Língua Portuguesa. Esse perceber o outro e suas necessidades contribuiu, e muito, para a troca de experiências com meus alunos universitários de Letras e Pedagogia, no ensino de leitura e as estratégias para as atividades com alunos cegos.

Mais recentemente, passei a investigar, em minha pesquisa de pós-doutorado, na Universidade de São Paulo, como essa construção identitária ocorreria no momento em que esse aluno interpreta textos, empregando modalizadores. Como sugestão de leitura, deixarei em nota de rodapé um artigo, que publiquei sobre o tema. ²

Durante este primeiro semestre, minha proposta é compartilhar com vocês algumas dessas reflexões, incluindo a indicação de outras leituras, filmes e vídeos a respeito desse assunto.

Neste início de 2021, já sabemos que os desafios serão imensos, pois, como é de conhecimento público, passamos por um momento histórico único, em que a humanidade enfrenta uma ameaça a sua sobrevivência por fatores de saúde ainda desconhecidos, gerando medo e insegurança nos mais diversos países, ao redor do planeta.

Somando-se a essa realidade de pandemia, observamos estarrecidos, em nosso Brasil, a desconstrução pelo próprio Ministério da Educação desse projeto de inclusão, com o desmonte das redes sociais protetivas, tão necessárias para superarmos barreiras e desenvolvermos novos caminhos.

Caberá, portanto, a nós professores e outros atores envolvidos com os mais diferentes segmentos sociais e educacionais, estarmos atentos aos discursos duvidosos, geradores de sentimentos caóticos, opostos ao fraterno e inclusivo, que colocam a pesquisa e a ciência como sofismas de uma suposta “teoria conspiratória”.

Para finalizar, gostaria de dar as boas vindas a todos e todas, parabenizando, em especial, os Organizadores deste espaço virtual, que nos incentivam a alimentar o diálogo com o outro, traçando, dessa forma, estratégias de resistência à barbárie e ao obscurantismo.

Um fraterno abraço.

Prof. Dr. Saulo César Paulino e Silva

¹ Para acessar, clique em https://www.youtube.com/watch?v=LV1Xi0LMev8

² Para acessar o texto, clique em http://www.sodebras.com.br/edicoes/N139.pdf (pag. 85-88)

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